A experiência quase mortal que passamos em 12 de outubro de 2014

ByAnderson Passos

ter 03 nov 2026

A experiência quase mortal que passamos em 12 de outubro de 2014 foi terrivelmente enriquecedora.

Éramos uma equipe de combate aéreo a incêndios florestais e, após várias decisões erradas (algumas minhas), decolamos bem acima do peso. E aí começou o nosso aperto.

Aquele voo durou poucos minutos e quase nos custou a vida.

Curvei à direita com apenas 200 pés de altura, assim que deixamos a pista do aeroporto em BH, e o helicóptero não tinha mais potência para subir.

Primeiro reclamei da máquina, mas, no segundo seguinte, percebi a m***da. Falei com todos sobre a situação e instalou-se um silêncio perturbador.

Como ainda estávamos abaixo de vários prédios, a única opção era seguir desviando deles e manter a maior velocidade possível. Eu me lembro de passar à meia altura do Hotel Ouro Minas…

Minha reação foi concentrar-me nos comandos e no caminho à frente para buscar o melhor a nosso favor, enquanto o copiloto fazia as comunicações habituais.

O alarme de falta de potência soava quando eu tentava subir, e o indicador de descida me espetava quando eu tentava ganhar velocidade.

O silêncio foi quebrado pelas sugestões dos colegas:

“Pouse naquele campo!”

“Pouse na avenida tal!”

“Vamos voltar!”

“Vamos jogar fora essa caixa de ferramentas, vamos jogar o helibalde!”

Nada daquilo era possível porque, se eu tentasse pousar, o que exigiria menor velocidade, o rotor de cauda perderia eficiência e iríamos girar sem controle e cair. Também não era possível voltar porque estávamos muito baixos. Nem mesmo abrir as portas era uma boa ideia, porque geraria arrasto e pioraria a sustentação, que já estava degradada.

Alguns minutos adiante, passamos bem perto da torre de uma igreja. Pensei em declarar emergência, mas tive a impressão de que a situação estava uma migalha melhor. Talvez pelo terreno mais baixo, talvez pela temperatura local ou mesmo pelo combustível já consumido desde a decolagem.

Nosso anjo da guarda foi caprichoso e conseguimos seguir voando até o Shopping Itaú, em Contagem, onde o vento nos foi favorável e subimos uns 400 pés. Avisei que estávamos em segurança e ouvi suspiros de alívio pela fonia. Acho que estávamos todos em apneia até então.

Naqueles minutos intermináveis, a equipe portou-se de forma impecável: cada palavra dita foi pensada para contribuir para a melhor solução. Sem desespero ou pânico. Isso fez toda a diferença.

De lá, fomos para o Aeroporto Carlos Prates para queimar mais combustível, abaixar a adrenalina e subir mais. Seguimos para o incêndio, o extinguimos e, à noite, dormimos aliviados após várias reflexões.

Das muitas lições, estas eu destaco:

Vencer a sua vaidade, compartilhar seus erros e falhas para que outros ajam melhor é uma forma de salvar vidas;

É sempre preciso lapidar os limites para dizer “não” quando a segurança exigir;

Podemos muito, não podemos tudo;

Manter o controle emocional nas emergências é fundamental;

O treinamento e a recência são ferramentas fundamentais para a tomada de decisões.

Voar é ótimo, pousar é espetacular!

  • Anderson Passos, colunista da Security Help

    Especialista em Gestão de Emergências, Incêndios Florestais e Salvamento.
    Piloto de helicóptero, bombeiro, perito em incêndios florestais, consultor ambiental, professor e palestrante, Anderson Passos possui uma trajetória dedicada à gestão de emergências, prevenção de riscos e operações de salvamento.

    Com experiência em incêndios florestais no Brasil e na Europa, também atuou em missões de salvamento como piloto de helicóptero dos bombeiros.

    Sua atuação combina conhecimento técnico, liderança, tomada de decisões sob pressão e experiência operacional.

    É coautor das obras “Brumadinho 272” e “Manual de Combate a Incêndios em Canaviais”, contribuindo para a formação e o desenvolvimento de profissionais.

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