A experiência quase mortal que passamos em 12 de outubro de 2014 foi terrivelmente enriquecedora.
Éramos uma equipe de combate aéreo a incêndios florestais e, após várias decisões erradas (algumas minhas), decolamos bem acima do peso. E aí começou o nosso aperto.
Aquele voo durou poucos minutos e quase nos custou a vida.
Curvei à direita com apenas 200 pés de altura, assim que deixamos a pista do aeroporto em BH, e o helicóptero não tinha mais potência para subir.
Primeiro reclamei da máquina, mas, no segundo seguinte, percebi a m***da. Falei com todos sobre a situação e instalou-se um silêncio perturbador.
Como ainda estávamos abaixo de vários prédios, a única opção era seguir desviando deles e manter a maior velocidade possível. Eu me lembro de passar à meia altura do Hotel Ouro Minas…
Minha reação foi concentrar-me nos comandos e no caminho à frente para buscar o melhor a nosso favor, enquanto o copiloto fazia as comunicações habituais.
O alarme de falta de potência soava quando eu tentava subir, e o indicador de descida me espetava quando eu tentava ganhar velocidade.
O silêncio foi quebrado pelas sugestões dos colegas:
“Pouse naquele campo!”
“Pouse na avenida tal!”
“Vamos voltar!”
“Vamos jogar fora essa caixa de ferramentas, vamos jogar o helibalde!”
Nada daquilo era possível porque, se eu tentasse pousar, o que exigiria menor velocidade, o rotor de cauda perderia eficiência e iríamos girar sem controle e cair. Também não era possível voltar porque estávamos muito baixos. Nem mesmo abrir as portas era uma boa ideia, porque geraria arrasto e pioraria a sustentação, que já estava degradada.
Alguns minutos adiante, passamos bem perto da torre de uma igreja. Pensei em declarar emergência, mas tive a impressão de que a situação estava uma migalha melhor. Talvez pelo terreno mais baixo, talvez pela temperatura local ou mesmo pelo combustível já consumido desde a decolagem.
Nosso anjo da guarda foi caprichoso e conseguimos seguir voando até o Shopping Itaú, em Contagem, onde o vento nos foi favorável e subimos uns 400 pés. Avisei que estávamos em segurança e ouvi suspiros de alívio pela fonia. Acho que estávamos todos em apneia até então.
Naqueles minutos intermináveis, a equipe portou-se de forma impecável: cada palavra dita foi pensada para contribuir para a melhor solução. Sem desespero ou pânico. Isso fez toda a diferença.
De lá, fomos para o Aeroporto Carlos Prates para queimar mais combustível, abaixar a adrenalina e subir mais. Seguimos para o incêndio, o extinguimos e, à noite, dormimos aliviados após várias reflexões.
Das muitas lições, estas eu destaco:
Vencer a sua vaidade, compartilhar seus erros e falhas para que outros ajam melhor é uma forma de salvar vidas;
É sempre preciso lapidar os limites para dizer “não” quando a segurança exigir;
Podemos muito, não podemos tudo;
Manter o controle emocional nas emergências é fundamental;
O treinamento e a recência são ferramentas fundamentais para a tomada de decisões.
Voar é ótimo, pousar é espetacular!

