Porto Alegre, a cidade modificada pelas construtoras

ByRedação SecurityHelp

sex 30 out 2026

O crescimento vertical das cidades representa progresso ou pode comprometer a infraestrutura, a mobilidade, a qualidade de vida e a segurança da população? Uma reflexão sobre os desafios do planejamento urbano em Porto Alegre.

Meu pai, arquiteto urbanista, sempre defendeu uma Porto Alegre mais humana.

Criou inimigos porque muitos não compreendiam suas argumentações, acreditando que ele era contra o progresso, contra os espigões ou contra alterações drásticas na cidade.

Na verdade, era favorável às transformações, desde que trouxessem benefícios reais e não comprometessem a estrutura existente.

Em uma de suas entrevistas técnicas à RBS, pude observar como os entrevistadores e demais debatedores demonstravam dificuldades para compreender os conceitos de urbanismo apresentados.

Era como se ele falasse uma língua alienígena, pois faltava aos demais participantes até mesmo um conhecimento técnico básico sobre o assunto, algo que considero reflexo de anos de deficiências na formação universitária.

Infelizmente, depois de décadas de trabalho e especializações técnicas na Secretaria Municipal de Obras e Viação (SMOV) da capital, ele tinha dificuldades para traduzir seu conhecimento em termos mais simples.

Certa vez, sugeri que utilizasse outra abordagem, uma explicação que até mesmo um adolescente pudesse compreender.

E apresentei o seguinte exemplo.

Verticalização urbana: o que acontece quando casas dão lugar a prédios?

Quando temos uma área residencial considerada nobre e queremos transformar casas em prédios, precisamos levar em consideração quais modificações serão necessárias na infraestrutura para comportar essa transformação.

Isso inclui:

  • Largura e capacidade das vias de circulação.
  • Trajetos e mobilidade urbana.
  • Abastecimento de energia elétrica.
  • Distribuição de água.
  • Redes de coleta e tratamento de esgoto.
  • Sistemas de drenagem e escoamento das águas pluviais.

Também devemos considerar a permeabilidade do solo, que será reduzida com o aumento da área construída, exigindo alterações nos sistemas de escoamento.

Outro fator fundamental é a disponibilidade de serviços para atender uma população que crescerá rapidamente.

Mercados, escolas, postos de saúde, clínicas e estabelecimentos comerciais precisam acompanhar essa nova demanda.

Afinal, não basta construir mais moradias. É necessário garantir que a infraestrutura urbana tenha capacidade para atender à população que passará a ocupar aquele espaço.

Um exemplo prático: de 100 para 700 pessoas em uma única quadra

Vamos à matemática.

Imagine uma quadra residencial padrão, com aproximadamente 100 metros por 100 metros, contendo 20 terrenos ocupados por casas.

Considerando uma média de cinco moradores por residência, teremos:

20 casas × 5 moradores = 100 pessoas.

Agora, imagine que essa mesma área seja verticalizada.

No lugar das casas, são construídos dez edifícios de seis andares, cada um com 20 apartamentos, considerando uma estimativa conservadora de ocupação.

Se cada apartamento tiver, em média, três moradores, teremos:

10 edifícios × 20 apartamentos × 3 moradores = 600 pessoas.

Acrescente aproximadamente 100 pessoas que circulam diariamente pela região, entre empregados, prestadores de serviços e visitantes.

O resultado será:

700 pessoas circulando em uma área que anteriormente comportava aproximadamente 100 moradores.

Isso representa um fluxo de pessoas sete vezes maior.

E estamos falando de apenas uma quadra!

O impacto dessa transformação na infraestrutura

Esse crescimento significa mais pessoas:

  • Circulando pelas mesmas ruas.
  • Utilizando veículos particulares e transporte público.
  • Consumindo energia elétrica.
  • Utilizando água potável.
  • Produzindo esgoto e resíduos.
  • Necessitando de escolas, mercados e serviços de saúde.
  • Demandando manutenção e ampliação dos serviços públicos.

O aumento do tráfego também acelera a deterioração das vias, exigindo manutenções mais frequentes e, em determinados casos, alterações na infraestrutura viária.

Ruas anteriormente destinadas a um fluxo reduzido passam a receber carros, caminhões, vans, veículos de serviços e transporte coletivo.

Tudo isso utilizando, muitas vezes, a mesma infraestrutura existente.

Agora imagine os efeitos dessa transformação em um bairro inteiro.

Crescimento urbano sem planejamento: quem realmente se beneficia?

Até parece que Porto Alegre não possui áreas para expandir.

Na minha avaliação, existem interesses que ajudam a explicar por que determinadas transformações urbanas avançam sem o planejamento necessário.

A gestão pública pode ampliar sua arrecadação de IPTU, já que um terreno anteriormente ocupado por uma única residência passa a abrigar diversas unidades imobiliárias.

Também existem interesses políticos e econômicos relacionados à alteração dos índices construtivos e à valorização dos empreendimentos imobiliários.

Quando essas decisões não são acompanhadas de estudos técnicos e investimentos adequados, o resultado pode ser um crescimento que compromete a qualidade de vida da população.

E os impactos não ficam restritos ao trânsito ou à infraestrutura.

Eles também podem alcançar diretamente a segurança pública.

Como a falta de planejamento urbano impacta a segurança?

O crescimento populacional sem a correspondente ampliação da infraestrutura e dos serviços públicos pode criar condições que dificultam a prevenção e o atendimento de ocorrências.

Com mais pessoas circulando, maior concentração de veículos e vias congestionadas, as forças policiais podem enfrentar dificuldades de deslocamento e resposta.

A demanda por segurança aumenta, enquanto os recursos disponíveis nem sempre acompanham essa transformação.

Nesse cenário, muitos condomínios e edifícios buscam alternativas por meio da contratação de empresas de segurança patrimonial.

Entretanto, essa solução também apresenta desafios.

Em determinadas situações, os serviços são executados por profissionais com preparação insuficiente, submetidos a condições operacionais inadequadas e a estruturas físicas que não foram concebidas com critérios apropriados de segurança.

Problemas de layout, ausência de procedimentos, falhas de treinamento e falta de avaliação de riscos podem comprometer a efetividade da proteção.

A segurança precisa ser considerada desde o planejamento urbano e arquitetônico, e não apenas depois que os problemas começam a aparecer.

Uma cidade planejada pode crescer horizontal e verticalmente

Uma cidade bem planejada pode crescer tanto horizontal quanto verticalmente.

O problema não está necessariamente na construção de edifícios, mas na ausência de planejamento para receber o aumento da população e das atividades econômicas.

Quando a expansão ocorre de maneira organizada, o poder público pode antecipar as necessidades da sociedade.

Novas áreas podem receber:

  • Vias dimensionadas para o fluxo previsto de veículos.
  • Redes de energia elétrica e abastecimento de água.
  • Sistemas adequados de drenagem e tratamento de esgoto.
  • Escolas e unidades de saúde.
  • Parques e espaços de convivência.
  • Mercados, comércios e serviços.
  • Delegacias e estruturas de segurança pública.

Além disso, o desenvolvimento planejado pode estimular a criação de empregos, novos negócios e oportunidades econômicas.

Ao expandir a cidade de forma estruturada, torna-se mais fácil planejar e administrar os recursos necessários para atender à população.

As vias podem ser projetadas considerando a demanda futura, assim como a capacidade das redes elétricas, os diâmetros das canalizações e as estações de tratamento.

Planejamento urbano é também planejamento de segurança

Essa é a verdadeira diferença entre aproveitar uma infraestrutura existente sem adequá-la à nova demanda e promover um crescimento urbano planejado.

Quando a expansão acontece sem os investimentos necessários, surgem problemas que afetam diretamente a população.

O trânsito se torna mais difícil, os serviços públicos ficam sobrecarregados, a infraestrutura perde eficiência e a qualidade de vida pode ser comprometida.

A insegurança também pode aumentar.

Por outro lado, quando o crescimento é planejado, as cidades passam a contar com melhores condições para organizar seus serviços, distribuir recursos e atender às necessidades dos cidadãos.

Mesmo que essas novas áreas sejam verticalizadas no futuro, o planejamento inicial permitirá uma adaptação mais eficiente às transformações.

Considerações finais: que cidade queremos construir?

O desenvolvimento urbano precisa ir além da quantidade de edifícios construídos ou do crescimento da arrecadação.

É necessário avaliar os impactos de cada transformação sobre a infraestrutura, a mobilidade, os serviços públicos e a segurança da população.

Uma cidade não se torna necessariamente melhor porque possui mais prédios.

O verdadeiro progresso acontece quando o crescimento urbano é acompanhado de planejamento, infraestrutura adequada e qualidade de vida.

No final, a reflexão que fica é:

Estamos construindo uma Porto Alegre preparada para o futuro ou apenas aumentando a população sobre uma infraestrutura que já apresenta limitações?

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